Logicomix, An Epic Search for Truth

>> terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Não existe em português (está previsto sair no Brasil, na Martins Fontes, mas penso que ainda sem data anunciada), lemos no original em língua inglesa - e recomendamos vivamente.

LOGICOMIX é uma viagem ilustrada, bastante rigorosa apesar de simplificada e romanceada, por alguns dos principais desenvolvimentos da lógica e da filosofia da matemática nos finais do século XIX e nos princípios do século XX. O esquema narrativo assenta principalmente numa conferência proferida por Bertrand Russell nos Estados Unidos, no dia 4 de Setembro de 1939, o dia em que a Inglaterra declara guerra à Alemanha. A conferência, intitulada "O papel da lógica nos assuntos humanos", permite rever quer alguns desenvolvimentos da lógica, quer a sua relação com a vida das nações e das pessoas.

Em termos de lógica e filosofia da matemática, o que está em causa é o problema dos fundamentos: como podemos ter certezas na matemática e, portanto, nas ciências em que a matemática é uma peça essencial. Não se trata apenas de saber lidar com o facto de que 1+2=3, mas de ter uma certeza fundada de que é assim e de por que é assim.

O problema de Russel naquela conferência não é apenas falar da lógica como um assunto científico, mas também dar uma resposta aos isolacionistas americanos que, estando contra a entrada dos EUA em guerra contra a Alemanha, questionavam Russell acerca do apoio que ele dava a essa participação na luta contra os nazis (na altura aliados aos soviéticos).

É que Russell tinha sido um pacifista activo contra a participação britânica na I Guerra Mundial, o que o levou inclusivamente a cumprir pena de prisão. É que a ideia de que "o sono da razão produz monstros" interessava tanto ao Russell filósofo e lógico, como ao Russell cidadão activo. Mas não era fácil explicar isso racionalmente naquelas condições.

Curiosamente, uma conferência filosófica fornece de facto um contexto dramático apropriado para as questões levantadas nesta obra.



Além das magnas questões da vida em sociedade, e de como ela se pode ligar à lógica, Logicomix dedica também largo espaço às vidas privadas de vários protagonistas, com destaque para Russell. Desde a infância, passando pelos namoro juvenil e casamento, ...

... até aspectos que me eram completamente desconhecidos, como a relação conturbada entre a família de Alfred Norton Whitehead e a de Russell (com cruzamentos "pouco lógicos" a emergir entre esses casais), além das conhecidas "liberalidades" que consentiam alguns intelectuais ao tempo.

Um aspecto que, a meus olhos, aparece como menos satisfatório, é a insistência no tema da loucura dos grandes lógicos. Não é que não soubéssemos dos factos, mas eles aparecem como meramente anedóticos. Dentro desse tema insiste-se um tanto na questão do suposto duplo carácter do próprio Russell. De qualquer modo, esse aspecto dará alguma satisfação aos que nunca conseguiram ter êxito nos seus estudos de lógica: pelo menos pouparam-se a certos riscos...

De qualquer modo, a verdadeira heroína desta obra é a lógica, ou a filosofia da matemática - e, sempre, a procura da certeza e da verdade. Uma das questões abordadas com mais pertinência é o papel da teoria dos conjuntos nesse empreendimento.



A explicação do famoso "paradoxo de Russell", que vem logo a seguir à página que reproduzimos acima, é um dos momentos altos do livro. Mas isso têm de ir lá ler (não encontrei imagens para essa parte).

Esta espécie de história da procura pela certeza lógico-matemática faz-nos encontrar com alguns monstros sagrados da filosofia dos séculos em questão. Um deles é Wittgenstein, que é retratado humanamente e filosoficamente, mas apenas para o chamado "primeiro Wittgenstein" (centrado no "Tratado Lógico-Filosófico"), deixando-se completamente de lado a viragem que constitui no seu pensamento a obra posterior intitulada "Investigações Filosóficas".



O curto excerto que se segue mostra uma a uma das questões filosóficas mais interessantes deste confronto, que diz respeito à existência ou não de uma "realidade matemática" propriamente dita (o número pi é uma entidade existente numa certa realidade?). O principal problema deste livro é a sua principal virtude: certas questões, sendo afloradas, só serão verdadeiramente compreendidas por quem tenha uma certa preparação prévia nas matérias em causa; os demais podem nem se aperceber delas. Isso, sendo, por um lado, um desperdício, é, por outro lado, uma riqueza: permite vários níveis de leitura e de problematização.

É também o caso desta discussão acerca da importância das tautologias (contrastada com a necessidade de compreender a realidade).

Como é sabido, Wittgenstein, tendo começado como um entusiasta de Russell, veio a adoptar perspectivas muito divergentes das do antigo mestre. Mas esse é o campo onde um certo dramatismo entra no plano das "mentes puramente especulativas".

Este livro pede outro que se lhe siga, onde entre Alan Turing e von Neumann, e os computadores, com a volta que eles trouxeram a algumas das questões aqui abordadas. Parece que essa sequela está implícita neste Logicomix. Mas, nas suas mais de 300 páginas, este volume já nos oferece uma viagem bastante extensa e profunda, incluindo Russell, Whitehead e Wittgenstein, como já dissemos, mas também Frege, Moore, Hilbert e Gödel. Que galeria!

Como livro de BD, em termos estritamente artísticos, não se pode dizer que LOGICOMIX seja extraordinário. É correcto, mas bastante tradicional, no desenho. Usa um esquema muito clássico para fazer respirar o leitor face ao conteúdo técnico: apresenta os autores do livro a discutir a própria feitura do livro (num esquema auto-referencial, como eles dizem à boleia do paradoxo de Russell). Contudo, talvez esse relativo conservadorismo até seja benéfico numa obra que, podendo deixar desconfiados os leitores tradicionais de BD por causa do tema, talvez não pudesse também "assustar" com exagerado arrojo gráficos os leitores novos que vêm pelo tema.


Referência:


LOGICOMIX, texto de Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou, desenho de Alecos Papadatos e Annie Di Dona, editado pela Bloomsbury, 2009



***

Os meus agradecimentos ao Professor Rodrigo Ventura por me ter chamado a atenção para esta BD.

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Persepolis 2.0

>> segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

Uma versão "pirata" de Persepolis, aplicada aos mais recentes acontecimentos no Irão.

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PERSEPOLIS, a história continua

>> terça-feira, 16 de Junho de 2009




Primeiro começou por ser uma grande Banda Desenhada e depois foi um filme de animação. (que recebeu o Prémio do Júri no Festival de Cannes). PERSEPOLIS é a história de uma rapariguinha iraniana que vive a queda do Xá e o início da República Islâmica no Irão - e que vive tudo isso nas contradições de todos os que tiveram esperança em coisas nas quais é perigoso ter esperança. A rapariguinha vem depois para o Ocidente, para ser poupada às eventualidades do poder religioso - e aí encontra outros motivos de perplexidade.

Vale a pena reler/rever Persepolis, agora que no Irão a história começou a mover-se outra vez. (Talvez. Oxalá.)

Algumas páginas podem ler-se abaixo (clicar para aumentar).























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BÓRGIA, de Manara e Jodorowsky - Parte 1

>> sexta-feira, 14 de Novembro de 2008


Juntas, a maestria de Milo Manara na erotização da imagem e a de Alejandro Jodorowsky na construção de ambientes esotéricos e simbólicos, dão um notável resultado na série Bórgia, série cujo primeiro volume saiu em francês em 2004 e teve tradução para português de Portugal em 2006. O segundo volume, que já saiu no Brasil, parece que ainda não apareceu por cá. Vamos aqui ler o primeiro volume, qualquer dia daremos conta do segundo.



Capa.
(Todas as imagens podem ser aumentadas clicando sobre elas.)


Este álbum retrata um tempo (final do século XV, princípio do século XVI) e um lugar (o Vaticano, cidade-estado no meio dos conflitos intrincados em que estavam atolados vários estados da mesma península) - tempo e lugar que eram de corrupção generalizada dos costumes, incluindo no meio do alto clero da Igreja Católica. Um tempo de desordem civil, de guerra e de insegurança, de instabilidade política. Um cenário onde o quartel-general da Igreja Católica é uma potência política podre por dentro, mais do que uma instância religiosa que reivindicava ser "a representante de Cristo na Terra".



O Papa Inocêncio VIII queixa-se da situação política.


Nesta Roma, personagens como o frade Savonarola, que entendem dever denunciar os podres da sociedade, são considerados fanáticos por se dedicarem a essa denúncia.



Savonarola pregando.


Além de um retrato de época, esta obra é também um retrato de papas. Claro, antes de mais, do Papa Alexandre VI, de seu nome Rodrigo Bórgia, espanhol (catalão), que foi o príncipe da corrupção sem limites, antes e durante o seu reinado papal, entre 10 de Agosto de 1492 e a sua morte em 18 de Agosto de 1503.
Contudo, a história começa com o seu antecessor, o Papa Inocêncio VIII, que ocupou "o trono de S. Pedro" entre 12 de Setembro de 1484 e a sua morte a 25 de Julho de 1492. Inocêncio VIII aparece aqui já às portas da morte - mas mesmo assim exibindo alguns dos seus traços característicos. A sua luta contra a doença e a morte, ainda assim, deram-lhe algum pioneirismo: foi a primeira pessoa a receber uma transfusão de sangue, embora não lhe tenha valido de nada. Mas alguém pagou essa inovsção...





Inocêncio VIII, beneficiário da primeira transfusão de sangue.


Esse mesmo Papa tinha mais ideias estranhas acerca das formas de se revitalizar...






De qualquer modo, mesmo os Papas morrem. Inocêncio VIII (os nomes que eles escolhiam) não foi, nisso, excepção. E quem estava decidido a tomar-lhe o lugar era o já mencionado cardeal Bórgia, que tinha, aliás, o apoio do seu antecessor. As pretensões do Bórgia não se deviam às suas particulares virtudes. Antes, à sua ambição. O facto de ter uma mulher/amante, com casa posta por ele e por ele publicamente protegida, não era impedimento.




É claro que a peste tinha de obedecer ao cardeal,
especialmente na função de protector da sua amante.



Está bem de ver que obra onde Manara ponha a mão explora o mais desbragadamente possível todas as pistas sexuais. É também assim o caso com a figuração do primeiro encontro entre o cardeal Bórgia e a sua amante especial nesta época: ele encontra-a estando ela a "sexualizar" com a estátua de um santo.




Tudo isto assentava na ideia de Deus como um instrumento dos poderosos da Igreja, como se exemplifica na fala do quadradinho seguinte.



"Se o ser misterioso a quem chamamos Deus não o impedir,
tornar-me-ei papa..."


É pois esta criatura virtuosa que parte à conquista do trono papal. Era por votos, mesmo assim. Havia, pois, que comprá-los. Isto já está muito pesado e, portanto, poupamos aos leitores alguns dos episódios desta fase da história... Mas, claro, o episódio de eleição do sucessor apostólico de Pedro, mete toda a política mais suja, incluindo a eliminação física de apoiantes dos adversários.





Seja como for, o cenário da eleição propriamente dita é grandioso...




E depois de algumas peripécias, está santamente eleito o Papa Alexandre VI.




Está assim no seu lugar, para a continuação da série, o respectivo "herói".
E, mais uma vez, onde Manara se mete a desenhar temos prometida exuberância. E já vimos noutras ocasiões que ele sabe escolher o material, de tal modo que mesmo aquilo que nos parece exagero da sua parte é, quando vamos a ver, rigor histórico e fidelidade aos materiais "sérios". É que a vida propriamente dita é tão bizarra que às vezes Manara até pode parecer um inocente desenhador...

(Nota: as imagens são da edição brasileira, e não da portuguesa.)

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o que é a BD para quem não sabe mesmo

>> quarta-feira, 12 de Novembro de 2008


Banda Desenhada
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Créditos no último slide

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crescer atrás da cortina de ferro, de Peter Sís

>> quinta-feira, 6 de Novembro de 2008


O álbum que hoje nos faz falar é de Peter Sís, que escreve e desenha The Wall, Growing Up Behind the Iron Curtain, no título do original norte-americano de 2007, publicado pela Frances Foster Books. A edição que possuo é italiana, de Setembro de 2008, na editora Rizzoli.





Peter Sís cresceu na Checoslováquia comunista e apresenta-nos mais uma obra da vaga de obras de BD que pensam e divulgam a história contemporânea recente a partir dos olhos de uma criança. Em 1982, Peter Sís foi a Los Angeles para trabalhar num filme para o governo checo e, uma vez lá, optou pelo exílio - como muitos outros foram fazendo ao longo da história.





A história que nos conta, apesar de tentar partir do olhar de uma criança, é densa - e o autor faz alguma coisa para nos levar para mão, fornecendo vários elementos de contexto. Não é, contudo, história que um adolescente desprevenido possa compreender cabalmente como quem lê "histórias aos quadradinhos" ...





Graficamente, o que temos como elemento básico são desenhos a preto e branco, sugerindo uma atmosfera cinzenta - política, cultural e socialmente cinzenta. Muitos dos desenhos têm pormenores a uma única cor, o vermelho - funcionando o vermelho quase sempre como marca do poder comunista, por exemplo nas bandeiras, nos símbolos (foice e martelo, estrela), no lenço ao pescoço da "farda" dos pioneiros. Dado este ponto de partida, os poucos elementos fortemente coloridos são marcas de ruptura, normalmente festiva ou pelo menos "agitada", de momentos em que a contestação às normas imperantes é vivida como um gozo suplementar da vida. A cor é o outro lado da vida (do muro): "tudo o que vem do Ocidente parece colorido". A cor é também o que distingue os desenhos que Sís faz desde miúdo.





As duas páginas inteiras que reproduzimos de seguida, constituindo uma única imagem, aparecem na narração da Primavera de Praga. A Primavera de Praga foi, em 1968, uma tentativa do partido comunista local para seguir uma via democrática para o socialismo, afastando-se da ortodoxia soviética. Esta imagem, com esse colorido pop, e por contraste com o preto e branco com pormenores de vermelho do grafismo dominante, dá uma conotação fortemente festiva a essa possibilidade de liberdade, possibilidade que foi frustrada pela invasão dos tanques do Pacto de Varsóvia, o bloco militar do leste comunista da Europa liderado pela União Soviética.





A representação dessa invasão segue o plano gráfico dominante: preto e branco com o vermelho do poder a salpicar: neste caso os elementos vermelhos são os tanques invasores espalhados pela cidade como um vírus que toma conta de um corpo.





Esta obra de BD não é de leitura imediata para quem esteja demasiado alheado do contexto da época e de algumas referências históricas. Vemos abaixo a referência a um concerto dos Beach Boys, de uma pequena tournée que fizeram por aquelas bandas alguns meses depois da invasão antidemocrática, a qual teve o condão de ainda dar um pequeno sopro à esperança de que talvez não se tivessem fechado todas as portas.





Nos desenhos que se seguem, que são parte de uma sequência um pouco maior, há uma luta entre o preto e branco do grafismo dominante, representando o cinzentismo do regime, e a cor como representante da expressão que alguns tentaram que fosse livre. Os grafitos que os anónimos tentam pintar nas paredes são coloridos e as peripécias do confronto com a polícia - entre pintar e apagar, e voltar a pintar - são um ir e vir entre a sobrevivência e a extinção da cor.










A queda do Muro de Berlim, datada de 9 de Novembro de 1989, é o fim desta história. Uma história que, neste álbum, passa pela insurreição popular na Hungria em 1956, esmagada pelos "aliados" soviéticos; pela construção do próprio Muro em 1961; pela crise dos mísseis em Cuba em 1962; pela visita do Presidente Kennedy dos EUA a Berlim em Junho de 1963 e pelo assassinato desse mesmo presidente em Dallas mais tarde nesse mesmo ano; pelo papel de Alexander Dubcek, líder do partido comunista checoslovaco em 1968 e verdadeiro herói da Primavera de Praga, quando "tudo parecia possível"; depois do fim, ou depois do princípio do fim, pelos estudantes checos Jan Palach e Jan Zajic que se imolaram pelo fogo no centro de Praga "para despertar a nação da letargia"; pela Carta 77, o grupo dissidente formado em 1977 e que contaria com alguns dos heróis da futura revolução democrática. A queda do Muro de Berlim é o fim desta longa e amarga história, um fim que não é só uma data, mas um conjunto de datas para várias revoluções no leste europeu, assinaladas junto a estes desenhos (mas aqui não visíveis). É um fim apropriado para uma narrativa que não é só uma história da Checoslováquia recente - mas uma história de uma parte importante da Europa e das suas vicissitudes num período de cerca de meio século.

É um pouco pena que a narrativa seja, do ponto de vista ideológico, um pouco unilateral - como se todas as desgraças do mundo tivessem a cor vermelha. Por exemplo, logo no início dá-se como definição de "comunismo": um sistema de governo em que o Estado controla toda a actividade social e económica. Mas o regime fascista nazi também era isso, pelo que a definição não faz o trabalho de uma definição. Além disso esquece-se que a história do leste europeu é também a história das derrotas que sofreram certos sectores dos partidos comunistas que tentaram a via democrática. A "insurreição popular" na Hungria de 1956 tinha a cumplicidade da liderança comunista, que foi afastada por pressão e acção soviética. E o mesmo aconteceu na própria Checoslováquia com a Primavera de Praga. E, se é para fazer história, mesmo aos quadradinhos, talvez fosse bem não ver só certas coisas e esquecer sempre outras. Por outro lado, certas coisas que se denunciam como se fossem exclusivas das ditaduras comunistas - não o são. Ser obrigatório fazer parte da organização de juventude do regime, nós por cá também sabemos o que isso é (foi). O mesmo para as actividades da polícia política, da censura. Certas coisas até existem ou existiram em países democráticos, como a obrigatoriedade de hastear a bandeira nas festas oficiais (eu já vivi num país onde isso era assim e ninguém considerava repressivo).
Mas será justo fazer este tipo de críticas a uma obra de BD? Porque não, pergunto eu. A BD é coisa séria. Às vezes, como neste caso, está a apresentar uma visão da história recente, de uma história que ainda interessa muito à compreensão do presente. E, nesse caso, o rigor que se pode exigir é o que se exige a qualquer obra séria.





Como o autor escreve no posfácio: alguns terão dificuldade em compreender que as coisas eram mesmo assim. Estamos a falar de história recente, mesmo muito recente, e muito próxima geograficamente. É também por isso que livros destes são um serviço prestado à memória cívica. Mas parece que não têm muito público em Portugal... Ou há por aí edições que eu desconheça (o que não seria de estranhar, porque sou um mero leigo curioso)?

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a metrópole feérica / terra incógnita

>> terça-feira, 28 de Outubro de 2008

Capa e primeira página de Manata - A Metrópole Feérica



"A Metrópole Feérica" é o primeiro volume de uma série, "Terra Incógnita", editada (e bem) pela Tinta da China .

José Carlos Fernandes escreve, Luís Henriques desenha. Os apreciadores de BD conhecem ambos, não vou estar aqui a tentar ensinar o que os outros sabem melhor do que eu. Limito-me, portanto, a dar opiniões.

Este volume inclui seis histórias: Manata, A Metrópole Feérica; Fílon, O Teatro do Mundo; Khamsin, A Inconstância da Vontade; Trabântia, As Fundações da Sociedade Perfeita; Tangaroa, O Umbigo dos Oceanos; Babel, Um Deus que nos Escute. Estas histórias traduzem uma estratégia narrativa que consiste em contar coisas acerca de cidades ou lugares que, embora não existam no mapa oficial, estão bem presentes nos nossos medos ou esperanças, ou nas diabruras que homens e mulheres com organização fazem a outros homens e mulheres mais desprevenidos. Estes lugares imaginários habitam a nossa inteligência. A inteligência que podemos ter das nossas patologias colectivas. O texto que aparece nas badanas (e que reproduzimos abaixo) dá, e bem, o programa. E é um magnífico programa, com muito espaço para a imaginação - mas também com muito lugar para dizer coisas sérias, pertinentes, intervenientes. As obras utópicas sempre serviram para dar força ao falar do que existe e do que deveria existir, utopia nunca foi delírio. E esta "terra incógnita" tem programa à altura dessa tradição que nasceu muito antes da BD.


pedaço de uma página de "Fílon - O Teatro do Mundo"


Os desenhos são magníficos. Eu diria metafísicos. Transmitem ambiente. Ambiência. Uma sensação de estar. Um estado de espírito. Uma ameaça específica em cada história. Sim, porque cada história tem um tipo de desenho muito próprio. O conjunto é um magnífico exercício de imaginação e arte.

O conjunto promete. Mas... e há tantas vezes um mas... mas é pena que esta obra denote, na escrita, uma certa pressa e uma consequente sensação de falha. Em geral as histórias assentam em excelentes ideias. Mesmo as que exploram linhas já muito batidas (Trabântia, como crítica das sociedades comunistas, a partir do nome do carro produzido na Alemanha da Leste antes da queda do Muro de Berlim, não é propriamente muito original). Provavelmente sem excepção, todas as histórias são geradas a partir de uma boa ideia para transmitir e de uma boa noção de como o fazer. Mas, também provavelmente sem excepção, ficam pelos aspectos mais corriqueiros dessa mesma ideia, ficam pela rama, desenvolvem pouco, não voam... e acabam por cair perto, com finalizações frouxas, banalizantes, decepcionantes. Será que os autores precisavam mesmo de publicar depressa? Não conheço as circunstâncias e pode haver explicações muito atendíveis. Mas este álbum faz lembrar o livro "A Caverna", de Saramago, que é um modelo de como uma ideia promete e depois falha, morrendo às mãos de um bom autor que se acomodou a um resultado muito inferior ao que se podia esperar dele.


Um recorte de "Trabântia - As Fundações da Sociedade Perfeita"


Dito isto, e dito sem dó nem piedade, cautela: a obra vale a pena, vale muito a pena. Lamentavelmente não atinge os cumes que, com o material que tem, prometia. Mas, mesmo assim, é um belo trabalho. Esperamos que os próximos volumes da "Terra Incógnita" sejam menos apressados e cumpram a promessa.


recanto de "Babel - Um Deus que Nos Escute"


No texto das badanas pode ler-se:


«Parece que um certo Thomas Kohnstamm, num misto ardiloso de arrependimento e oportunismo, deu à estampa um livro intitulado "Do travel writers go to hell?", em que confessa que nem sempre visitou os sítios sobre os quais escreveu para os prestigiados guias de viagens da "Lonely Planet". O guia da Colômbia terá sido escrito em São Francisco (EUA) a partir das informações veiculadas por uma namorada de Kohnstamm, que era funcionária no consulado colombiano na dita cidade californiana. Atendendo ao clima insalubre que reina na Colômbia e sendo a qualidade de gringo de Kohnstamm um atractivo que o tornaria num candidato a ganhar uma estadia vitalícia nas colónias de férias geridas por seitas narco-marxistas e a ter de passar o resto dos seus dias a aturar o zumbido dos mosquitos e as leituras em voz alta de textos programáticos de Lenine, a opção do escritor parece mais que atilada.
O director executivo da "Lonely Planet" declarou-se decepcionado com esta revelação, mas tentou salvar a reputação da empresa, afirmando crer que os restantes guias são credíveis e não são beliscados por esta fuga pontual à verdade.
Pois eu sonho com um dia em que todos os guias sejam escritos sem visitar os locais e os viajantes que os seguem se percam e frequentem restaurantes não recomendados, e comam o arranjo floral sobre a mesa julgando tratar-se de um prato típico, e contraiam doenças desconhecidas da medicina, e façam gestos com as mãos que poderão exprimir afecto no Ocidente Civilizado mas que noutras paragens podem querer insinuar que o interlocutor mantém relações íntimas e regulares com caprinos, e passem ao lado do rutilante Mausoléu do Rei do Poliuretano Expandido e dos urinóis públicos em que um Artista Pop Famoso foi surpreendido em relações contranatura e da gruta onde Pigres de Caria escreveu a peça "Batrachomyomancia", e se esqueçam de visitar a cidade natal do compositor Bohuslav Matěj Černohorský, e caminhem inadvertidamente de havainas, boné de baseball e iPod aos berros sobre o túmulo do profeta Al-nasdaq, e sejam perseguidos por uma turba enfurecida que os quer fritar em azeite como punição por tão inimaginável sacrilégio.
Tanto quanto sei, os autores do presente livro levam vidas apagadas, burguesas e recatadas num canto ensolarado da Europa meridional e são pouco viajados, pelo que não têm conhecimento directo dos sítios de que falam – é pois com entusiasmo que recomendo este livro.»

Thomas Hook, fundador da Agência de Viagens Estacionárias Couch Potatoe

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