a metrópole feérica / terra incógnita

>> Terça-feira, 28 de Outubro de 2008

Capa e primeira página de Manata - A Metrópole Feérica



"A Metrópole Feérica" é o primeiro volume de uma série, "Terra Incógnita", editada (e bem) pela Tinta da China .

José Carlos Fernandes escreve, Luís Henriques desenha. Os apreciadores de BD conhecem ambos, não vou estar aqui a tentar ensinar o que os outros sabem melhor do que eu. Limito-me, portanto, a dar opiniões.

Este volume inclui seis histórias: Manata, A Metrópole Feérica; Fílon, O Teatro do Mundo; Khamsin, A Inconstância da Vontade; Trabântia, As Fundações da Sociedade Perfeita; Tangaroa, O Umbigo dos Oceanos; Babel, Um Deus que nos Escute. Estas histórias traduzem uma estratégia narrativa que consiste em contar coisas acerca de cidades ou lugares que, embora não existam no mapa oficial, estão bem presentes nos nossos medos ou esperanças, ou nas diabruras que homens e mulheres com organização fazem a outros homens e mulheres mais desprevenidos. Estes lugares imaginários habitam a nossa inteligência. A inteligência que podemos ter das nossas patologias colectivas. O texto que aparece nas badanas (e que reproduzimos abaixo) dá, e bem, o programa. E é um magnífico programa, com muito espaço para a imaginação - mas também com muito lugar para dizer coisas sérias, pertinentes, intervenientes. As obras utópicas sempre serviram para dar força ao falar do que existe e do que deveria existir, utopia nunca foi delírio. E esta "terra incógnita" tem programa à altura dessa tradição que nasceu muito antes da BD.


pedaço de uma página de "Fílon - O Teatro do Mundo"


Os desenhos são magníficos. Eu diria metafísicos. Transmitem ambiente. Ambiência. Uma sensação de estar. Um estado de espírito. Uma ameaça específica em cada história. Sim, porque cada história tem um tipo de desenho muito próprio. O conjunto é um magnífico exercício de imaginação e arte.

O conjunto promete. Mas... e há tantas vezes um mas... mas é pena que esta obra denote, na escrita, uma certa pressa e uma consequente sensação de falha. Em geral as histórias assentam em excelentes ideias. Mesmo as que exploram linhas já muito batidas (Trabântia, como crítica das sociedades comunistas, a partir do nome do carro produzido na Alemanha da Leste antes da queda do Muro de Berlim, não é propriamente muito original). Provavelmente sem excepção, todas as histórias são geradas a partir de uma boa ideia para transmitir e de uma boa noção de como o fazer. Mas, também provavelmente sem excepção, ficam pelos aspectos mais corriqueiros dessa mesma ideia, ficam pela rama, desenvolvem pouco, não voam... e acabam por cair perto, com finalizações frouxas, banalizantes, decepcionantes. Será que os autores precisavam mesmo de publicar depressa? Não conheço as circunstâncias e pode haver explicações muito atendíveis. Mas este álbum faz lembrar o livro "A Caverna", de Saramago, que é um modelo de como uma ideia promete e depois falha, morrendo às mãos de um bom autor que se acomodou a um resultado muito inferior ao que se podia esperar dele.


Um recorte de "Trabântia - As Fundações da Sociedade Perfeita"


Dito isto, e dito sem dó nem piedade, cautela: a obra vale a pena, vale muito a pena. Lamentavelmente não atinge os cumes que, com o material que tem, prometia. Mas, mesmo assim, é um belo trabalho. Esperamos que os próximos volumes da "Terra Incógnita" sejam menos apressados e cumpram a promessa.


recanto de "Babel - Um Deus que Nos Escute"


No texto das badanas pode ler-se:


«Parece que um certo Thomas Kohnstamm, num misto ardiloso de arrependimento e oportunismo, deu à estampa um livro intitulado "Do travel writers go to hell?", em que confessa que nem sempre visitou os sítios sobre os quais escreveu para os prestigiados guias de viagens da "Lonely Planet". O guia da Colômbia terá sido escrito em São Francisco (EUA) a partir das informações veiculadas por uma namorada de Kohnstamm, que era funcionária no consulado colombiano na dita cidade californiana. Atendendo ao clima insalubre que reina na Colômbia e sendo a qualidade de gringo de Kohnstamm um atractivo que o tornaria num candidato a ganhar uma estadia vitalícia nas colónias de férias geridas por seitas narco-marxistas e a ter de passar o resto dos seus dias a aturar o zumbido dos mosquitos e as leituras em voz alta de textos programáticos de Lenine, a opção do escritor parece mais que atilada.
O director executivo da "Lonely Planet" declarou-se decepcionado com esta revelação, mas tentou salvar a reputação da empresa, afirmando crer que os restantes guias são credíveis e não são beliscados por esta fuga pontual à verdade.
Pois eu sonho com um dia em que todos os guias sejam escritos sem visitar os locais e os viajantes que os seguem se percam e frequentem restaurantes não recomendados, e comam o arranjo floral sobre a mesa julgando tratar-se de um prato típico, e contraiam doenças desconhecidas da medicina, e façam gestos com as mãos que poderão exprimir afecto no Ocidente Civilizado mas que noutras paragens podem querer insinuar que o interlocutor mantém relações íntimas e regulares com caprinos, e passem ao lado do rutilante Mausoléu do Rei do Poliuretano Expandido e dos urinóis públicos em que um Artista Pop Famoso foi surpreendido em relações contranatura e da gruta onde Pigres de Caria escreveu a peça "Batrachomyomancia", e se esqueçam de visitar a cidade natal do compositor Bohuslav Matěj Černohorský, e caminhem inadvertidamente de havainas, boné de baseball e iPod aos berros sobre o túmulo do profeta Al-nasdaq, e sejam perseguidos por uma turba enfurecida que os quer fritar em azeite como punição por tão inimaginável sacrilégio.
Tanto quanto sei, os autores do presente livro levam vidas apagadas, burguesas e recatadas num canto ensolarado da Europa meridional e são pouco viajados, pelo que não têm conhecimento directo dos sítios de que falam – é pois com entusiasmo que recomendo este livro.»

Thomas Hook, fundador da Agência de Viagens Estacionárias Couch Potatoe

12 comentários:

mmmnnnrrrg 28 de Outubro de 2008 21:33  

A Amadora dominar o quê!? acho que gosta mais de deixar recadinhos no blogue da CCC do que lê-lo!
por favor...

Gustavo Carreira (requiem) 29 de Outubro de 2008 01:52  

Também já li o livro.
O Luís Henriques brinda-nos com uma arte fantástica, de facto.
No entanto, discordo de si quanto a algumas das considerações sobre o argumento (e texto) do JCF, especialmente no que toca à falta de desenvolvimento dos temas.
A maior beleza, por vezes, encontra-se com um efémero olhar de soslaio e, pessoalmente, é na fecundidade de ideias do JCF que encontro o seu génio.
Concordo, por outro lado, que o final das histórias acaba por decepcionar um pouco.
Já agora, sabe-me dizer em quanto tempo foi elaborado o livro?
Vou mantê-lo por perto durante umas semanas. É daqueles que se podem abrir numa página qualquer para desfrutar de uma única prancha (desenho e texto) calmamente, durante uns minutos.

Cumprimentos bedéfilos.

Porfirio Silva 29 de Outubro de 2008 10:08  

Caro mmmnnnrrrg (espero não me ter enganado no nome...): um juízo sobre o domínio comunicacional de um evento não equivale a qualquer juízo sobre o valor intrínseco desse mesmo evento. Muito menos equivale a uma tomada de posição pessoal acerca de...
Mas peço desculpa por o ter irritado. Confesso que para mim é curioso (quase tema de estudo futuro) como são festivamente diferentes os comportamentos básicos em várias regiões da blogosfera: a blogosfera dos "cientistas", dos "literatos", dos "políticos", dos "artistas" e por aí fora. Reacções assim ajudam-me a perceber a blogofera bedéfila. Obrigado pela contribuição involuntária.

Porfirio Silva 29 de Outubro de 2008 10:15  

Caro Gustavo:
Apesar de me dizer que discorda da minha opinião sobre a falta de desenvolvimento dos temas, concorda depois que "o final das histórias acaba por decepcionar um pouco". Se calhar não estamos muito longe...
É claro que custa sempre "criticar" algo que achamos bom, como é o caso deste trabalho. Mas criticar é um exercício de esperança em coisas ainda melhores.
Vejo, do meu lado, uma explicação para a minha reacção a este trabalho: em termos de literatura "normal" tenho muita dificuldade em gostar de contos, textos curtos, e prefiro os grandes textos, com tempo e ritmo para me afundar no espírito. Deve ser a mesma reacção que me leva a sentir a falta de qualquer coisa em pequenas histórias que prometem muitos voos... e aterram logo ali.
Em resumo: a obra em causa dava, com outra respiração, meia dúzia de obras explorando cada uma das peças.
Obrigado pelas suas observações.
Cumprimentos.

mmmnnnrrrg 29 de Outubro de 2008 11:47  

Qual valor do evento? Aonde é que a Amadora tem algum valor para nós?
Por favor, deixe-se de largar parvoíces escritas no blogue da CCC - não é o sítio certo para deixar recadinhos (ou publicidade ao seu blog) deste género. Se conhecesse ao certo o que divulgamos no blog da CCC irá perceber que não nos interessa a BD Amadora. O que faz é tão rídiculo como deixar um comentário sobre Teatro de Revista num blogue sobre Teatro Experimental. Percebeu agora?
mmmnnnrrrg está bem escrito - acertou em algo. Já agora, com direito justo de fazer publicidade como já o fez, conhece a editora? go to www.gentebruta.pt.vu e deixará de romantismos ingénuos...

Porfirio Silva 29 de Outubro de 2008 12:19  

Se não quer os meus comentários no seu blogue, existem mecanismos para isso. Mecanismos técnicos, digo. Não precisa ter ataques biliares nem descer abaixo dos mínimos na linguagem. Já agora, se pelo menos entendesse (saber ler português dá jeito) o que escrevi, veria que a sua resposta dispara ao lado.
Eu leio o seu blogue, mas nunca tinha percebido que as preferências marcadas por certas coisas e o desprezo por outras era mesmo sectarismo. Pensei que fosse apenas uma estética. Se em certos círculos até a estética do berro e da matraca é acolhida, porque duvidar de que as suas preferências e linguagem sejam uma pose estética? Vexa., pelo contrário, nem tempo tem para ler um comentário curto sem atropelar a semântica.
Ah, já agora: todos sabemos que a publicidade pode assumir muitas formas, incluindo a agressão como forma de chamar a atenção. Por isso, esteja à vontade. Faça lá a sua publicidade que não me incomoda. Até acho graça.

diário rasgado 30 de Outubro de 2008 01:01  

Caro Porfírio,



É mais uma vez com enorme prazer que leio um texto seu, desta vez sobre o grande José Carlos Fernandes e a sua colaboração com o Luís Henriques. Fazem falta intelectuais como o senhor, capazes de dizerem o q pensam sobre os mais diversos domínios, das artes à ciência, neste nosso país. Um abraço,

Marco

diário rasgado 30 de Outubro de 2008 01:07  

outra coisa, para o José, caso ele venha a ler: a legião de fãs que conquistaste, aquém e além fronteiras, jamais deverão pesar em ti. As últimas obras que produziste não acrescentarão muito à tua (merecida) glória. Mas cá estaremos para continuar a ler-te, até que a coisa afine. Boa sorte

diário rasgado 30 de Outubro de 2008 01:16  

e o Marcos é bom rapaz, e bom artista, também. A blogoesfera por vezes gera equívocos que num encontro face-a-face seriam prevenidos... A minha simpatia para ambos,

M

diário rasgado 30 de Outubro de 2008 01:19  

e por fim, a publicidade aqui é recíproca, certo?

diário rasgado 30 de Outubro de 2008 01:20  

he he

Porfirio Silva 3 de Novembro de 2008 11:17  

Caro Marco,
As suas palavras são simpáticas, mas eu não escrevo sobre BD como "intelectual", seja lá o que isso for :-) - escrevo como amante, que é muito mais perigoso... E, nisso concordo, escrevo o que me parece sem medo, porque não sou "crítico", nem "especialista", mas como leitor tenho direito a opinar e não me escondo.
Quanto a outros diálogos: concordo que a blogosfera por vezes dá ideias erradas das pessoas, e portanto não julgo as pessoas, mas apenas as suas "máscaras públicas": aquilo que compreendo pelo que leio. E aceito que isso não é tudo.
Apareça sempre a fazer publicidade!

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