Portugal em BD. Portugal, por Cyril Pedrosa.

>> Sábado, 19 de Novembro de 2011



Saiu em Setembro passado, na Dupuis. Cyril Pedrosa, que desenhou o seu próprio argumento, tem razões de biografia própria para produzir um álbum intitulado "Portugal". Ele é um francês luso-descendente. Quanto ao resto, não me interessa até onde vai o carácter autobiográfico da obra. Nem isso importa à qualidade, marcante, desta obra.


Trata-se, em "Portugal", de cruzar, na vida de um autor de BD, o seu país e a viagem às raízes encobertas no país dos seus avós. Aí entra Portugal. Mas não há folclore nenhum nesse olhar sobre Portugal, embora haja ternura. Mas essa ternura não é de postal, é uma ternura genuína pelas pessoas normais, que também são encenadas em França, designadamente nos episódios do casamento. Há o tema da crise criativa de um autor, essa sim apresentada com alguma tolerância de quem joga em casa. Há as crises do amor e as dificuldades de lidar com isso (e o livro fala delas sem qualquer complacência para o macho, próximo de ser identificado com o autor, que às vezes passa além do desajeito). A descoberta de Portugal é a descoberta de que as memórias não são páginas escritas bem guardadas em caixas, mas tramas enredadas que nem sempre se desembaraçam facilmente.


Há uma certa melancolia, mas doce e sem amargura. Há inúmeros temas da vida concreta e real, talvez surpreendentemente com uma repetida insistência em temas da velhice e da sua condição. Mas sem caridadezinha nenhuma, oscilando entre o olhar clínico, um pouco frio às vezes, e o carinho assumido.



Um verdadeiro romance, complexo, com muitos afluentes ao rio principal da narrativa. Ao mesmo tempo, um excelente trabalho de exposição de cambiantes psicológicas, de humores.


As cenas colectivas são, também elas, fabulosas, desenhadas com um grande sentido do clima, de um ambiente, de uma ocasião - e de como isso muda tanto no mundo.




Passando para o desenho, o que é notável é a extrema diversidade de ataques que este álbum comporta. A complexidade psicológica, a rede de situações tão diferenciadas, as personagens tão distintas e tão bem desenhadas na sua individualidade - tudo isso é plasmada numa enorme diversidade de apresentações pictóricas. O traço, quando é ele que estrutura a mensagem, não é muito diversificado. Mas quando a base do desenho é a forma e a cor, parece-me que temos meia dúzia de álbuns diferentes dentro de um só álbum, como se meia dúzia de desenhadores tivessem partilhado a criação. Notavelmente, isso não sabe a inconsistência: é a forma BD de dar profundidade e complexidade a um romance, que se não fosse BD apenas disporia das palavras como recurso.
O autor joga muito bem com a presença do francês e do português.


O português, quando é falado, não parece corrigido por alguém que tenha a nossa língua como língua materna, embora haja agradecimentos a quem ajudou nesse aspecto linguístico. Curiosamente, isso dá um realismos acrescido às situações, porque sugere que o português foi apanhado apenas pela sonoridade, pelo ouvido de alguém que sabe ouvir mas não conhece a língua, o que resulta na criação de um clima muito específico.

Também pelo que acabou de ser mencionado, estou curioso para ver como vai este álbum ser traduzido para português. O que, indiscutivelmente, tem de acontecer. Até lá, desculpem os demais, mas esta pérola está reservada para quem seja capaz de ler francês.

Algumas pranchas deste álbum podem ser encontradas aqui. Não desanimem por verem, de início, poucas imagens. Lá mais para a frente há páginas completas disponíveis.

Aqui podem ler uma entrevista com Pedrosa.


Aqui pode ver o vídeo de uma apresentação de Pedrosa na Alliance Française de Washington.

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